Realidade “nua e crua” do jornalismo (em dez tópicos)

1. As histórias que são publicadas são as histórias que vendem
A razão pela qual é mais provável que se leia sobre um tiroteio do que sobre a abertura de uma biblioteca, é porque, com a escassez de recursos, as emissoras e publicações impressas dedicam o seu tempo às histórias que vão captar maior atenção. Sites hyperlocais, como o EveryBlock, intensificaram-se para preencher o vazio, mas a expressão “if it bleeds, it leads”, nunca foi tão verdadeira.

2. Muitas histórias não são cópia editada
Com a crise, as empresas dispensam recursos, a começar pelos editores. Sem eles, muitas histórias, especialmente aquelas que aparecem em linha, são publicadas sem primeiro terem sido verificadas a ortografia e a gramática. Estes erros estão a tornar-se cada vez mais frequentes, o que afecta a credibilidade da agência de notícias.

3. Muitas histórias vêm de agências noticiosas
Há uns anos, os jornais estavam cheios de histórias escritas por repórteres das próprias publicações, sobre questões nacionais e internacionais. Com a dispensa de muitos jornalistas das redacções, cada vez mais as histórias nacionais que aparecem num jornal local são escritas por agências de notícias, como a Reuters, a Associated Press ou a Lusa (ainda há dias alguém dizia: o que seria de muitos órgãos de comunicação social, se esta estivesse um dia, uma semana, sem produzir conteúdos?).

4. Alguns jornalistas são movidos por prémios
A grande maioria dos jornalistas escolhem a profissão para poderem espalhar a notícia para tantas pessoas quanto possível e esclarecerem as comunidades que abrangem. Há também alguns deles cuja intenção passa por ganhar prémios, como Pulitzer e Emmy. Embora não o admitam abertamente, algumas histórias são escritas para ganhar a adoração de outros jornalistas, em vez de capacitarem os leitores.

5. Os jornalistas são tendenciosos
Imparcialidade… é humanamente impossível. Apesar de os jornalistas se esforçarem para se certificar que as suas histórias são tão imparciais quanto possível, muitos cobrem assuntos específicos porque se sentem particularmente ligados a eles.

6. Alguns jornalistas usam a Wikipedia
Embora o uso da Wikipédia seja desaprovado em muitas redacções, por causa de sua falta de fiabilidade, muitos repórteres usam-na como fonte com fatos verificados. Tal foi o caso com o obituário do compositor francês Maurice Jarre.

7. Não existe uma grande conspiração
Não tanto uma realidade pessimista, mas uma realidade que alguns se recusam a aceitar. Há um número crescente de críticos que atacam os meios de comunicação, por colectiva e intencionalmente empurrarem a agenda liberal ou conservadora. A verdade é que um esforço concertado não existe e a maioria das publicações são feitas por jornalistas individuais, com uma ampla variedade de interesses e de inclinações políticas.

8. Muitos jornalistas têm projectos paralelos
Na idade de ouro do jornalismo, os repórteres podiam dedicar-se exclusivamente ao seu trabalho na redacção, quando não havia o medo de serem demitidos repentinamente. Actualmente, como é a precariedade que reina, muitos jornalistas dedicam-se a escrever livros, à consultoria, criam blogs… na procura de formas que possam ajudar a construir a sua marca pessoal ou a trazer alguns euros extra.

9. O entretenimento é que conta
Quando jornalistas lamentam a “morte” do jornalismo, fazem-no referindo-se essencialmente às grandes peças de investigação, que expõem políticos e trazem à tona questões que estavam encobertas. A realidade é que as histórias mais populares em sites de notícias muitas vezes não são peças que implicaram investigação, mas histórias de entretenimento e notícias sobre celebridades (Cristiano Ronaldo gera certamente mais tráfego do que o Presidente da República).

10. Ninguém tem as respostas
Todos procuram o salvador do jornalismo e a solução para os problemas do sector. Redes sociais, paywalls, reestruturação e micropagamentos, têm sido sugeridos como a chave para salvar o jornalismo. Porém, quem diz que eles têm uma resposta definitiva, está iludido ou mal informado. Juntos vamos tentar fazer tudo para assegurar o futuro do jornalismo, mas o que será exactamente essa solução mágica, continua por descobrir.

Fonte: 10,000 words.

Bookmark and Share
Autor | Author
Pedro Jerónimo | Jornalista, curioso da comunicação e apaixonado pelo fotojornalismo. Jerónimo, Pedro | Journalist, communication curious and photojournalism lover. | +infos

Comment Pages

There are 4 Comments to "Realidade “nua e crua” do jornalismo (em dez tópicos)"

Write a Comment

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>