“Comunicação de massas”
NUMA semana em que muito se tem falado da “liberdade de expressão” e de alegadas “pressões na comunicação social”, surgem exemplos, que reprovo, enquanto leitor. Já não bastava a instabilidade social, provocada pela crise económica, aqui e ali vão surgindo notícias ‘incendiárias’, que em nada ajudam a promover a coesão, a estabilidade.
No dia em que as atenções se centravam no ‘clássico’ Sporting x Benfica – ½ finais da Taça da Liga –, lia-se num diário, on-line, “Derby: vingança depois do Algarve?”, com uma foto de um atleta ‘leonino’, de ‘peito feito’ ao árbitro, que tanta polémica causou na então final da Taça da Liga, 2008/09, envolvendo precisamente os dois ‘grandes’ de Lisboa. ‘Jornalisticamente’ falando, a notícia desenvolvia-se em torno de factos, porém, atendendo ao ambiente já de si ‘incendiado’ – polémica com os bilhetes e a habitual tensão que os derbies provocam – terá sido esta abordagem a mais sensata?
Ouvia ainda alguém ler, num diário nacional, do mesmo dia, em papel, “Papa Bento XVI: Pedófilos devem ser afogados”, título referente a uma notícia que dava conta de um encontro com o Conselho Pontifício para a Família. Como seria de esperar, esta rapidamente se disseminou, sobretudo na Internet, onde se lia também, na edição on-line de um semanário, que “os que escandalizam as crianças merecem que lhes coloquem uma mó de moinho ao pescoço e os atirem ao mar”, citação igualmente atribuída ao Papa. Não quereria o jornalista referir-se antes ao evangelho de São Mateus (18,6-7):
“Mas, se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, seria preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar. Ai do mundo, por causa dos escândalos! São inevitáveis, decerto, os escândalos; mas ai do homem por quem vem o escândalo!”?
Responsabilidade é o que se pede, também, àqueles que integram a comunicação social, que tem por missão (in)formar os seus leitores, ouvintes, telespectadores, com factos concretos. Há quem se dedique ao sensacionalismo. É legítimo. Há quem aprecie. Por outro lado, a missão do jornalista, na actual conjuntura, global, é cada vez mais difícil, na medida em que lhe é exigida, em pouco tempo, por exemplo, a produção de conteúdos para multiplataformas (é, de facto, uma actividade desgastante). Porém, antes de cada profissional há uma pessoa, um cidadão, um leitor, um ouvinte, um telespectador. No período difícil que o país atravessa, seria importante que cada um pudesse dar o seu contributo. No caso dos jornalistas, seguir a sugestão de D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, quando dirigiu a primeira edição de 2010 de um semanário leiriense, em que pediu um olhar mais “humano”, mais verdadeiro, para a sociedade. Ámen!
(Artigo publicado na edição do semanário O Mensageiro, de 10 de Fevereiro)
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Autor | Author Pedro Jerónimo | Jornalista, curioso da comunicação e apaixonado pelo fotojornalismo. Jerónimo, Pedro | Journalist, communication curious and photojournalism lover. | +infos |
There are 2 Comments to "“Comunicação de massas”"
O jornalismo depende actualmente do poderio económico dos grupos que o sustentam. Isto por um lado assusta-me, pois se há uns que defendem a sua integridade com unhas e dentes, outros há que face às próprias necessidades se vendem.
O jornalismo sensacionalista não é mais do que um passo na direcção da corrupção ética e deontológica daqueles que o praticam. Isto acontece, não por culpa dos editores ou chefes de redacção, mas por culpa do próprio consumidor do jornalismo – o leitor, ouvinte ou telespectador.
De nada serve, por exemplo, ter uma publicação recheada de conteúdos sérios e interessantes se depois, a mesma não chega ao consumidor porque este simplesmente se deixa apelar pelos títulos sensacionalistas de outras.
É bem verdade, Celso. Aliás, basta olhar-se para os líderes nos segmentos televisão e diários nacionais e seus conteúdos.
O que é certo é que ouço muitas pessoas a criticá-los, precisamente pelo sensacionalismo, porém, são os primeiros a consumi-los! Um bocado paradoxal.