Informação e ciberjornalismo local
O PÚBLICO apresenta – na edição de ontem – um trabalho onde procura explorar o papel dos blogs locais e regionais, nas áreas geográficas a que se destinam. São citados alguns bloggers e investigadores, entre os quais, o autor destas linhas.
Confesso que não sou um estudioso dos blogs, porém, interesso-me pela informação e pelos media de proximidade, bem como pelo (ciber)jornalismo que desenvolvem. Foi precisamente por aí que – via ObCiber – a autora decidiu entrar em contacto.
Se, por um lado, as páginas de um jornal não são suficientes, por outro, há informações que podem interessar. E como este espaço também serve para partilhar, aqui ficam alguns pensamentos, links e afins.
Que impacto acha que os blogs locais (sobre política, cultura, …) têm nas comunidades/cidades portuguesas? Há aquela questão de muitos darem informação que os próprios jornais deixam passar, por exemplo…
Penso que podem ser muito úteis, não só porque os próprios media e a única agência noticiosa em Portugal não conseguem chegar a todo lado, mas também porque este facto tem sido agravado pela crise, que tem levado a uma redução de jornalistas nas próprias redacções. Isto aplica-se não só aos de âmbito nacional, mas também aos de âmbito local, que inclusivamente também já sugerem aos seus utilizadores blogs locais, da autoria de agentes e/ou simpatizantes políticos, culturais, desportivos… Não quero com isto dizer que substituam os trabalho dos jornalistas. Podem é ser boas fontes de informação. Talvez por isso os principais media mundiais comecem a identificar e agregar blogs locais.Por outro lado, os blogs com informação de proximidade também pode servir de promoção ao debate entre as comunidades locais. A Baixa do Porto (http://www.porto.taf.net/dp/) é um bom exemplo. É ainda usual ver artigos de opinião, em jornais de âmbito nacional ou regional, com referência aos blogs dos respectivos autores. É uma forma de envolver as populações, ainda que não se esperem grandes contributos. Aliás, dos blogs que conheço, são poucos os que conseguem gerar muitos comentários.
Como jornalista, por exemplo, conheço alguns que são boas fontes de informação. Na área desportiva, onde trabalho, há um caso, o Futebol Distrital de Leiria (http://futeboldistritaldeleiria.blogspot.com) que é um bom exemplo de convergência de informação e de colaboração entre bloggers. Há outros casos em que são os blogs, de adeptos, simpatizantes, a assumirem o papel informativo, como o da U. Leiria (http://uniaodeleiria.blogspot.com) ou do Marrazes (http://sclmarrazesjovem.blogspot.com)…
De uma forma geral, e apesar de terem potencial de promoção do debate, não me parece que neste momento assumam um papel muito relevante, sobretudo quando falamos no seu formato tradicional. Facebook e Twitter estão mais na moda. O Facebook, por exemplo, permite múltiplos recursos para o debate, mais do que os blogs tradicionais.
Considera que no caso português estes blogs sejam um bom exemplo de “jornalismo do cidadão”?
Prefiro antes chamar-lhe informação do cidadão. Há rotinas associadas à actividade jornalística que não se espera que o cidadão comum desenvolva, como apurar a veracidade do que publica, de cruzar fontes de informação… Portanto, na minha opinião, não se trata de jornalismo. Por outro lado, é importante que os jornalistas não discriminem a informação produzida por bloggers, na medida em que podem tornar-se parceiros. Veja-se os casos do Twitter ou do Facebook. O primeiro é uma plataforma de microblogging que permite a disseminação da informação de uma forma muito rápida. Há uns meses assisti a um caso, em directo, em que um cidadão se tornou co-autor de uma notícia de um jornal regional. Assistiu a um incêndio, fotografou-o com o seu telemóvel, publicou a informação na sua conta Twitter, que começou a ser reproduzida (retuitada), pelos seguidores. Minutos depois, um jornalista entrou em contacto com ele, pediu-lhe autorização para usar a fotografia, que publicou junto com a notícia entretanto redigida, no site do jornal. Estamos a falar num período de 10 a 15 minutos. As cheias na Madeira e a informação que se gerou, é outro exemplo de como o Twitter se revelou muito útil, para utilizadores e os media. No caso do Facebook, parece-me que neste momento gera mais debate do que os tradicionais blogs. Isto deve-se ao facto de permitir o que os blogs já permitiam, mas integrado numa rede social. E depois há ainda os telemóveis, a partir dos quais facilmente se actualizam contas (Twitter e Facebook).Resumindo, penso que os blogs ajudam a colmatar a falta de informação sobre determinadas localidades ou nichos de mercado, como a culinária, coleccionismo, música, desporto… No fundo aquelas pequenas freguesias ou municípios onde nem os media regionais chegam, por um lado, ou aquele gostos, hobbies, tão particulares que a poucos interessará. É aquilo a que se chama informação hiperlocal, de uma rua, de um bairro, de um clube…
Que potencial acha que poderão ter estes blogs? Acha que em Portugal é totalmente aproveitado? Em que ponto estamos em relação a outros países?
Penso já ter respondido um pouco a esta questão…Neste momento parece-me que o potencial está nas redes sociais, como o Facebook, ou em plataformas de microblogging, como o Twitter. Se considerarmos que há mais telemóveis por habitante do que acesso à internet, então temos muita, mas muita informação produzida. Vejam-se os festivais de Verão, os concertos, em que milhares de pessoas filmam, fotografam e publicam em videoblogs ou outras plataformas similares. Quero dizer, os jornalistas por vezes não podem captar imagens, mas nada impede os cidadãos de o fazerem. Ao existirem blogs, microblogs, redes sociais, focados em informação local, aumenta-se a possibilidade desta se globalizar. Como diria o investigador espanhol Xosé López Garcia, no seu livro “Ciberperiodismo En La Proximidad”, um acontecimento antes de ser global, é local. Portanto, os blogs podem desempenhar um importante papel neste particular.
Relativamente à restante questão, sugiro-lhe os trabalhos de Paulo Serra, investigador da Universidade da Beira Interior, que tem estudado os blogs (http://www.bocc.ubi.pt/pag/bocc-serra-impacto.pdf, de 2006, http://www.bocc.ubi.pt/pag/serra-paulo-blogs-outros-media.pdf, de 2009).
Sobre blogs regionais: http://prisma.cetac.up.pt/edicao_n3_outubro_de_2006/.
Outros links: http://www.networkedblogs.com/network/portugal/, http://pauloquerido.pt/blogosfera/os-bloggers-dependem-bastante-mais-do-trabalho-dos-jornalistas-do-que-o-inverso/.
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Autor | Author Pedro JERÓNIMO |
