Desafios do (ciber)jornalismo
OPINE aí s.f.f. Basicamente era o que a Daniela Gonçalves – aluna do 2.º ano do curso de Comunicação Social do Instituto Superior Miguel Torga de Coimbra – pretendia. Devo dizer que apanhei logo um susto com o tema do trabalho: “Os desafios do jornalismo em tempos de Internet. Os jornais vão sobreviver? Que modelos de comunicação têm de adoptar os media tradicionais perante o digital?” Recomposto, seguiram-se os bitaites.
Quais as principais mudanças estruturais, ou eventuais rupturas, considera terem existido com a implementação dos jornais online?
Começo por dividir a questão em duas partes: oportunidades e práticas.
Com o aparecimento da Internet e posteriormente das redes sociais, os jornais passaram a ter a oportunidade de actuarem em mais do que um meio. Teoricamente deixaram de ser meros jornais em papel e passaram a ser marcas de informação com múltiplos canais de actuação. E quando falo em actuação não falo numa comunicação unidireccional, que caracterizou (e ainda caracteriza) a actuação da generalidade dos media. Quero dizer, há a oportunidade de uma comunicação bidireccional. Falo acima de tudo da oportunidade para a conversação, isto é, uma maior proximidade entre quem anteriormente só produzia (jornalistas) e quem anteriormente só consumia (leitores). A questão da periodicidade deixa igualmente de fazer sentido. Um semanário tem um fecho por semana, para a edição em papel, mas um fecho diário, permanente, no seu ciberjornal.
Isto tudo levou ainda à necessidade de adaptação a novas linguagens. O jornalista já não escreve e tira fotos somente. Passou ater a possibilidade de, no “novo” meio, comunicar usando uma linguagem multimédia. No fundo contar estórias que envolvam mais sentidos e quem façam sentido serem contadas assim.
Quanto à prática, na generalidade está muito longe da teoria. Apesar de estar atento aos media mais “sonantes” em Portugal, observo com mais atenção os locais e regionais, nomeadamente ao nível da imprensa. E nesse campo o shovelware contínua a ser a prática dominante. Há 15 anos que os conteúdos do papel são meramente transpostos para a web, sem grandes edições. É assim desde 1996 – ano em que começaram a surgir os primeiros cibejornais regionais – com os conteúdos noticiosos paraa Internet e contínua a ser assim com a utilização que é feita das ferramentas mais recentes, como o Facebook ou o Twitter. Neste último caso é o “shovelware a 140 caracteres” (Jerónimo e Duarte, 2010). Apesar de haver, pontualmente, algum aproveitamento das potencialidades destas ferramentas, a generalidade usa-as essencialmente para disseminarem informação. Resumindo: nos media regionais – e não só – ainda se mantém a cultura da comunicação unidireccional. Nós produzimos, vocês consomem. Enquanto assim for, juntando ainda a inexistência de um modelo de negócio para o online, não me parece que se possa falar em (grandes) roturas. A mentalidade é a mesma.
Um aparte. No dia em que recebo estas perguntas, o DN anuncia uma redacção multiplataforma. Falamos de um jornal histórico em Portugal, que me parece que está a fazer mais uma operação de cosmética do que outra coisa. Antigamente – ou não tão longe quanto isso – os jornais mudavam o layout, mas os conteúdos mantinham-se. Aqui parece-me o mesmo. E digo-o a partir de alguns indicadores que recolho do vídeo de apresentação. Fala-se em não sei quantas ilhas de edição (vídeo), para serem usadas pelos jornalistas que se adaptem melhor à realidade. Então mas aprioridade não devia ser ao contrário, recursos humanos primeiro e os técnicos depois? Mostra-se um grande aparato tecnológico, mas qual será a estratégia ciberjornalística? Uma redacção tão grande e equipada para quem? Os jornalistas estão preparados ou isto é uma imposição?
Quero dizer, tal como no tempo só do papel, investe-se em mudar em imagem, a encher o olho, mas fora isso, nada. Veremos.
Não tendo existido mediamorphosis (passagem radical dos media tradicionais para os novos media), qual o papel dos meios de comunicação tradicionais (como o jornal, rádio ou tv), com o advento da Internet?
Irei focar-me novamente no caso que melhor conheço: imprensa regional.
Não querendo ser pretensioso – não sou o único a achar isso –, penso que a “terra das oportunidades” está no local. É sobretudo a imprensa regional que alimenta o alinhamento noticioso local dos principais media em Portugal. A Internet facilitou-lhes imenso o acesso, sobretudo aos ciberjornais que mantêm uma actualização regular. Com as redacções a diminuírem e alguns jornais regionais e locais a fecharem, vai-se perdendo a cobertura noticiosa ao nível local. Os que resistirem continuarão a ter um importantíssimo papel de comunicação da informação local e regional. Isto aplica-se à imprensa e restantes media, mas não só. O aparecimento da Internet e a mudança dos media de massas para o eu-media, levou a que qualquer pessoa possa comunicar-se com a sua “audiência”. Portanto, se numa determinada freguesia, município ou distrito não existir um meio de comunicação social, haverá sempre um blogue, uma página no Facebook onde alguém falará sobre assuntos que lhe são próximos. O principal papel dos media será estabelecer uma rede de redes, entre os mais ou menos eu-media que estejam associados a determinada localidade ou assunto. No fundo, não se pede outra coisa que não praticar aquilo que supostamente os caracteriza: (ciber)jornalismo de proximidade.
Por fim, acrescento que também ao nível dos media locais e regionais se apresenta o grande desafio de encontrar um modelo de negócio para o online. Importará sempre que comecem por se questionar sobre quem são e quem querem que sejam os seus “(ciber)leitores”. Onde estamos e para onde queremos ir? O que temos que fazer para nos adaptarmos a esse(s) rumo(s)?
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Autor | Author Pedro JERÓNIMO |