Leitores e utilizadores dos (ciber)jornais regionais
QUESTÕES colocadas pelo Região de Leiria, que na edição de ontem publica alguns excertos, no artigo “Há um jornal que nos une ao leitor”. O mesmo é enquadrado na liberdade de expressão e na aproximação do 25 de Abril.
O que é, hoje, ser leitor de um jornal?
Ser leitor é um estatuto muito redutor na actualidade. Com o aparecimento da Internet, e com ela o email, os ciberjornais e as redes sociais online, mudou muito a forma como o antigo leitor se posiciona face aos media. Em primeiro lugar deixou de ser alguém que passivamente lê o jornal. Actualmente, utilizador será o termo mais correcto. Isto porque pode aceder às notícias diariamente e nos ciberjornais. Estes espaços permitem comentar, classificar (se gostou muito ou pouco) e partilhar (com seguidores do Facebook e Twitter), algo que dificilmente se fará, de uma forma tão fácil e rápida, nas páginas dos jornais. Pelo menos a possibilidade de disseminação aumentou significativamente com a Internet. A interactividade, na perspectiva da relação dos cidadãos com os media e vice-versa, conheceu assim uma mudança significativa.
Por outro lado, estas mudanças também têm abalado os media. Com as possibilidades que se abriram ao utilizador (antigo leitor), este ganhou mais autonomia, podendo mesmo partilhar conteúdos com a sua própria rede de seguidores. Se por um lado a informação que produz ou partilha, pode ser muito útil para ser integrada no trabalho dos jornalistas, por outro, pode tornar-se perigosa. A recente guerra civil em Portugal, “criada” por um utilizador do Twitter, é um exemplo da proporção que um boato pode tomar. E no caso não surgiu de uma forma qualquer, dado que a informação teria sido veiculada por uma agência noticiosa internacional e um diário espanhol, algo que se veio a comprovar não ser verdade. Isto para dizer que, num período em que se questiona qual o papel dos media e do jornalismo, a missão deste último é determinante para a sociedade, na medida em que credibiliza a informação.
Por fim, ser utilizador, ou leitor (para o caso daqueles que só lêem jornais em papel), é ser co-participante de uma sociedade informada e esclarecida. Penso que os cidadãos deverão ter um papel mais activo na vida dos media e vice-versa, pois não podem existir uns sem os outros.
O que considera que interessa aos leitores?
Neste momento decorre um estudo coordenado pelo professor João Carlos Correia (Universidade da Beira Interior), cujo título é Agenda dos Cidadãos, que pretende responder precisamente a essa questão. Como ainda não há muitos dados, irei focar-me unicamente na questão da Internet, isto é, os ciberjornais e o ciberjornalismo, que é da qual tenho mais informações.
Na tese de doutoramento que actualmente desenvolvo, estudo três ciberjornais regionais, entre os quais o regiaodeleiria.pt. Das mais de 2.000 notícias analisadas até ao momento, posso adiantar que o que mais interessa às pessoas são temas que afectam directamente o seu dia-a-dia. Esse indicador pode ser recolhido a partir do número de comentários que determinada notícia gera no ciberjornal ou da partilha e comentários no Facebook. Dou como exemplo, no caso do REGIÃO DE LEIRIA, as três notícias publicadas online, em Novembro de 2011, aquando da abertura da Variante da Batalha (A19). Só no ciberjornal geraram-se cerca de 50 comentários, o que não é normal. Outra notícia, já em Janeiro deste ano e relacionada com uma alegada burla numa empresa de Leiria, gerou 22. Estamos a falar de situações que, directa ou indirectamente, estarão associadas ao (des)emprego ou no acesso a ele. Quanto às motivações, basta ler os comentários para se perceber que é um misto de indignação e introdução de dados novos, que podem ter escapado aos jornalistas. O que, neste último caso, não é necessariamente mau. Afinal, “os meus leitores sabem mais do que eu” (Dan Gillmor).
O que é que os faz participarem no jornal?
O facto da imprensa regional abordar temas que são próximos das pessoas, que lhes afecta o dia-a-dia, leva a que a relação também se dê no sentido inverso. É frequente os jornalistas destes media referirem a frequência com que os leitores ou utilizadores aparecem na redacção ou os abordam na rua para contestar ou informar. O sentir a sua terra, será certamente uma das motivações para a participação. Afinal de contas, quais são os media que acompanham com mais frequência as gentes, culturas e saberes de uma freguesia, município ou distrito?
Fale-me um pouco sobre a forma como os jornais envolvem os leitores.
Penso que actualmente o estão a fazer sobretudo utilizando as plataformas digitais. É, por um lado, uma forma fácil e rápida de chegarem a um público mais jovem, que dificilmente lê jornais em papel, e por outro, uma abordagem mais económica para a imprensa regional, que na generalidade sempre viveu em crise. Por outro lado, sabemos que está por descobrir o modelo de negócio para o online, pelo que a envolvência com os leitores terá que se fazer cada vez mais offline. Não só porque estes media são conhecidos por praticarem um jornalismo de proximidade, mas também porque este é um tema que está na agenda das recentes investigações a nível internacional. Há um crescente interesse pelos media (hiper-)locais ou de proximidade, sobretudo nos EUA, mas também em países ibero-americanos, que sempre sempre estiveram atentos. É inclusivamente apresentada como uma saída profissional para os estudantes de jornalismo, isto é, assumirem eles a cobertura noticiosa local, com projectos próprios. Parece que se está descobrir agora que o que é próximo das pessoas lhes interessa mais do que aquilo que se passa na China ou na Líbia.
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Autor | Author Pedro JERÓNIMO |